segunda-feira, 7 de setembro de 2015


Cheguei a um período de vida em que já não sei me expressar. Já não sei o que dizer as pessoas. Não consigo mais me comunicar com elas. Porque é que, como criança, adolescente, é tão fácil começar o afeto? Gostar das pessoas e se fazer gostar. Depois de um tempo se torna difícil demais. Um labirinto de imagens que vão sendo construídas sobre você de você para o mundo te jogam numa sala de espelhos em que você grita, mas não encontra a saída.
Não há voz nem janelas na sala.
A ansiedade de já não saber dizer "Oi, quer ser meu amigo" é paralisante. O veneno dessa aranha corre por suas veias lhe tornando um julgador. Tudo que sabe pensar é julgamento. A maior parte sobre você mesmo. E você sempre olha e pensa "se esconda". E se aparece, o que faz é desenhar máscaras de ferro. Se esconda ainda é o mantra. 
O que acontece nessa sala, porque as portas vermelhas estão fechadas? Porque a casa de porta vermelha está desbotada e as flores murchas? Não sei. Adulteza.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Sobre o bem interessado.

Como o bem se manifesta no cotidiano das pessoas ocidentais? A partir de leituras acerca da necessidade de uma partilha do sensível, da construção dos significados socialmente e, de maneira geral, da necessidade de uma sociedade guiada pelo ser no mundo, nesse mundo realmente tátil em que nos inserimos, as conclusões são pessimistas. 
Ainda que a maioria de nós concorde que o bem é um valor em si só, a aplicabilidade desse conceito é falha numa sociedade religiosa. Numa lógica de salvação ou danação eterna, na qual a sua passagem pelo mundo tangente é apenas um meio para se chegar a um fim, o bem como valor ontológico se rarefaz.
Se um cidadão realiza o que considera o bem, esperando pela recompensa da salvação eterna, ou ainda temendo uma punição eterna, não é o bem que se está praticando e sim um treinamento canino.
Somos treinados a temer a figura que chamamos de Deus e não a conhecer os valores que atribuímos a tal figura e aplicá-los pelo seu mais simples princípio ético.
Cria-se um mecanismo de controle, parecido com a prisão de Foucault, na qual uma torre no meio da prisão, espelhada, ainda que vazia, passaria a eterna sensação de ser observado, impedindo fugas. Assim é a figura judaico-cristã de Deus. Aquele que tudo vê, auscultando seus mais íntimos pensamentos. É uma forma de prisão.
Dessa forma, nós, os presos vigiados, ainda que muitas vezes sendo guiados a ações consideradas malignas, acabamos não as realizando. Todavia, essa não realização não se dá pela reflexão sobre o que é o mal e suas consequências éticas. Se dá, em verdade, por medo de uma punição.
As consequências disso são pessoas que, cada vez mais, só respeitam aquilo que lhes é diretamente cobrado. O limite de trânsito só vale quando temos um radar. E o radar funciona da mesma forma que o princípio divino.
Numa busca pelo bem enquanto valor ontológico e aplicável nessa estado de ser no mundo, é imperativo que não seja a vigilância o princípio regulador e sim a reflexão.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Aniversários, expectativas e sorvete.



Leitores, há quanto tempo!

Não vos falo já há longa distância, que a meus dedos fogem as palavras e a minha cabeça fogem as ideias. Pois hoje venho lhes comunicar que fazer aniversário é uma das piores invenções do ser humano, depois do dinheiro. Já começo com esse ar comunista, mas justifico não ser esse meu objetivo, caros.
Mas voltemos ao começo e não coloquemos os bois na frente dos carros. Pois bem, ontem essa que vos fala completou seus vinte e dois anos de vida. Dos quais três não se lembra, dez foram preenchidos por memórias criadas pela imaginação que, se confrontadas, tornariam-se um amontoado de joelhos ralados e nariz escorrendo; depois mais uns cinco de frustrações, imaturidades e situações ridículas. Depois o período em que se acredita adulta, mas nos quais, no entanto, chora como um bebê em circunstâncias inusitadas. Pois bem, completo os vinte e dois anos e me desiludi com os aniversários.
O que passa, amigos, é que o aniversário é um grande chamariz para decepções, expectativas, pressões psicológicas e falsidade. O que acontece é que você espera coisas absurdas como que as pessoas adivinhem seus desejos. No entanto, se você os contar, estraga a surpresa. Então a pressão se instaura em todos os seus entes queridos que não sabem como te presentear, se instaura na sua cabeça que teme a rejeição, no ambiente ao redor em que as pessoas não sabem se abraçam, apertam a mão ou mandam uma mensagem no facebook.
E no fim, com os dois patinhos na lagoa não há nem mesmo brigadeiros. Há apenas a necessidade social de se comemorar. E ressaltemos, há o que se comemorar, sempre há. No meu caso há e muito, um ano de alegrias e muitas. No entanto, a pressão do dia estraga tudo. Escrevo, então, leitores para fazer um apelo. Que nos parabenizemos uns aos outros nos momentos inusitados. Lembrei que você é ótimo em desenhar círculos, tarefa assaz árdua e pouco reconhecida, meus parabéns! Que nos presenteemos em dias comuns, imagine que alegria num aqueles dias de calor sufocante, desses que nos afligem aqui na, agora, dourada Curitiba, ser acometido pela surpresa de um adorável picolé de iogurte com frutas vermelhas como um presente. Dessa forma, caríssimos, nos livramos da pressão e aumentamos a alegria! E que nos aniversários...Bem, também ocorram os parabéns e ps presentes, mas que esses deixem de ser uma obrigação social.
Vê? Ainda movimentaremos o mercado capitalista, queridos, só os produtores de cartões de aniversário que me perdoem, eu prefiro um texto online.

Abraços,
Bruna Dancini.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Lilith na literatura, uma análise de Agonia, de Vinícius de Moraes.



            O medo frente à figura feminina não é inédito, nem recente. Há, na mitologia judaico-cristã uma figura que simboliza o medo frente à sexualidade feminina de maneira muito abrangente. Tal figura é Lilith. De acordo com Rodrigues (2011), a simbologia dessa personagem abarca o medo do homem ocidental frente a uma figura de mulher independente e insurreta. Lilith teria sido criada por Deus anteriormente à Eva, no mesmo momento em que Adão. Porém, sendo ela criatura vinda do pó pelas mãos divinas tanto quanto Adão, ela não aceitava ser subjugada pelo homem, nem mesmo sexualmente. Por isso, após núpcias no sétimo dia da criação, quando Adão vê-se aterrorizado frente à falta de controle dele no ato sexual, por toda a luxúria e voluptuosidade de Lilith, o primeiro casal se desfaz e essa mulher é amaldiçoada por Deus. Porém, quando os anjos descem para matá-la ela os impede lembrando que o próprio Deus a havia encarregado de cuidar de toda criança homem até o oitavo dia e de toda criança mulher até os vinte anos. Para puni-la, então, Deus a torna estéril. Tal mito, abarca diversas figuras arquetípicas da sociedade judaico-cristã. Primeiramente, o medo frente à sexualidade feminina. O homem quando destituído de sua lucidez pela luxúria encontra-se num estado de temor. Em segundo lugar, o medo da figura estéril que, ao mesmo tempo, é uma grande-mãe fálica.
Sant’Anna (1993) discute muito bem o poder desse mito na poesia brasileira. Com variações, o autor encontra representações desse medo masculino frente à chamada vagina dentada em diversas manifestações da literatura. No caso específico da poética de Vinícius de Moraes, Sant’Anna discute tal aspecto na subsessão A grande mãe boa e má e seu filho-amante. Ali, o autor atenta para a reincidência dessa figura de mãe ambígua, que ao mesmo tempo parece atraente, num conceito edípico do amor e, no outro pólo, assustadora por seu aspecto fálico, maligno e poderoso. No poema Agonia, de Vinícius de Moraes, encontramos muito claramente esse lado maligno de uma mãe estéril, a qual podemos associar com o mito de Lilith.
O eu lírico encontra-se em estado de grande agonia, como mostrado no título do poema. Tal sentimento aflora graças a uma cena que se desenrola: A mulher, Lilith, é vista de maneira ambígua: o pavor é claro desde o início, no segundo verso o eu lírico afirma-se amedrontado. No entanto, no quinto e no sexto verso percebemos indícios de um estado anterior “Na minha angústia eu buscava a paisagem calma/ Que me havias dado tanto tempo”. Há então uma mudança de sentimento, o eu lírico encontrava-se em estado de calma frente àquela mulher. Estado esse de quando o amor edípico é realizado nos cuidados maternos para com o filho. No entanto, na segunda fase desse amor edípico, a realização desse amor é imoral. Podemos perceber um estado de sonho, devaneio, no poema, corroborado pelo cenário de deserto, pelas cenas desconexas em que o eu lírico é engolido por essa figura de Lilith, a menção à palavra “sono” em paralelo à morte, bem como pelo fato do poema ser encerrado com o verso “Quando despertei era claro...” (grifo meu). Nesse sonho, o eu lírico divide-se entre o desejo edipiano por essa figura materna, advindo do inconsciente e a repulsa causada pela proibição e o medo da castração pertinente à segunda fase do complexo edípico. A agonia do título é causada por esse sentimento ambíguo. Do qual se busca escapar, situação evidenciada pelos versos em que o eu lírico afirma procurar se erguer e, percebendo que seus movimentos eram inúteis, pois se encontrava em areia movediça, ainda tenta escapar pela imobilidade. Podemos analisar inicialmente esse movimento como uma participação nesse ato sexual que ocorre em sonho e, em seguida, devido á culpa filtrada pelo consciente, a tentativa de negação pela imobilidade. Essa culpa é evidenciada pelo termo “voragem”, o qual remete a um perigo religioso, o pecado de desejar a própria Grande-mãe, Lilith. A associação á essa figura mitológica também é corroborada pela marcada esterilidade da mulher do poema. A imagem do deserto também é importante, na mitologia, Deus haveria amaldiçoado Lilith a caminhar eternamente pelos desertos. Algumas culturas africanas afirmam que ela anda pelo deserto nas costas de um camelo, procurando homens perdidos para devorá-los após o ato sexual.
Para analisarmos o todo do poema, devemos recorrer ao ciclo vida-morte-vida, fortemente associado à figura feminina da deusa, também simbolizada por Lilith. Vinícius de Moraes, em Agonia, constrói uma imagem de vida, afinal, o "grande corpo branco" também é abrigo inicial, lugar de calma anterior, como já salientado. Após esse período de vida há a destruição. Tal destruição nas entranhas da figura feminina pode ser atribuída ao medo edípico, entremeado de desejo, que culmina nessa punição castradora, causando a morte, evidenciada pelo verso "Depois foi o sono, o escuro, a morte." E, por fim, a vida novamente em "Quando despertei era claro e eu tinha brotado novamente". Todo esse ciclo encerra-se no ambiente do sonho, ambiente propício à construção imagética freudiana.

Agonia
Vinícius de Moraes
No teu grande corpo branco depois eu fiquei.
Tinha os olhos lívidos e tive medo.
Já não havia sombra em ti - eras como um grande deserto de areia
Onde eu houvesse tombado após uma longa caminhada sem noites.
Na minha angústia eu buscava a paisagem calma
Que me havias dado tanto tempo
Mas tudo era estéril e mostruoso e sem vida
E teus seios eram dunas desfeitas pelo vendaval que passara.
Eu estremecia agonizando e procurava me erguer
Mas teu ventre era como areia movediça para os meus dedos.
Procurei ficar imóvel e orar, mas fui me afogando em ti mesma
Desaparecendo no teu ser disperso que se contraía como a voragem.

Depois foi o sono, o escuro, a morte.

Quando despertei era claro e eu tinha brotado novamente
Vinha cheio do pavor das tuas entranhas.

REFERÊNCIAS:
RODRIGUES, Cátia Cilene Lima. Lilith e o arquétipo do feminino contemporâneo. São Paulo: Universidade Mackenzie, 2011.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. O canibalismo amoroso. Rio de Janeiro: Racco, 1993.




Autoria: Bruna Dancini Godk.


domingo, 22 de setembro de 2013

Vem cá, te conheço?



Vem cá, te conheço?
Há certo tipo de encantamento maligno na convivência.  Talvez a pessoa x pudesse ter um ótimo papo sobre a transcendência dos elementos estéticos de um texto. Mas vocês acabam conversando paradoxalmente sobre qualquer coisa inútil, como falar mal de alguém. Talvez a pessoa y seja apenas um babaca. Mas a convivência coloca-o no mesmo círculo de x. Às vezes, a pessoa z poderia ser seu melhor amigo. Mas a pessoa z não está no seu círculo de convivência.
            E você sai da sua casa, do seu trabalho, da sua aula e tem coragem de parar sozinha naquele café. Aquele café bonito que tem toda uma atmosfera de filme. Que te dá vontade de recitar poemas ou fumar, mesmo você não fumando. Naquele café, há mais quatro ou cinco pessoas como você. Que poderiam estar na sua mesa. Que poderiam ser seus amigos de longa data. Mas você está preso ao seu circulo de convivência e o mais longe que chega é uma sugestão de amigo do facebook.
            E se, naquele dia, você decidisse sentar na mesa daquela estranha que usa roupas que você acha legais. Que está lendo um livro do Tchekhov que você já leu e queria discutir com alguém. E ela pediu um café que você sabe que não é o melhor, poderia indicar um outro. Mas acaba que as convenções sociais te fazem ficar na sua mesa. Ela ficar na dela. Imagina, uma menina ir puxar papo com outra menina. Onde foi parar sua heterossexualidade? Mas, talvez, você só estivesse atrás de uma conversa para fugir do encantamento maligno da convivência.

            Pago a conta e vou embora. Nem experimentei as empadas Caruso. Nem soube que aquela pessoa poderia querer desabafar. Pego o ônibus. Vou embora. Entro no facebook e começo uma conversa “você não sabe da última!”...


Se eu te convido...

Quartos de verdade são bagunçados. Quartos de verdade têm coisas. Que tipo de quarto só tem de coração e não tem livros inacabados. Não tem roupa jogada na poltrona e uma bolsa encostada em algum lugar? Que tipo de quarto não tem papel de bala escondido nos bolsos e bagunças que você não sabe porque ainda não jogou fora? O que é esse glamour decorativo que criaram de quartos que mais parecem hospícios, tão clean, tão organizado.
A minha bagunça é a minha sanidade. A cama está arrumada e é isso que importa para nós, não é? Os lençóis cheiram á shampoo. O edredom é macio. Qual o problema com meus xerox espalhados. Se parar para ler pode ser até que aprenda uma nova essência da vida.
É engraçado como nos espantamos ao irmos para o quarto. Não é pra ter essência de canela e decoração pós-moderna. É pra ter cheiro de mim e decoração de lembranças. Aproveita, eu deixei você até emprestar um livro da prateleira.
Quarto de verdade é bagunçado, mas é isso que atrai. É essa bagunça que tinha sido anunciada pela porta vermelha. Afinal, nenhum de nós quis ficar na sala, quis? Os melhores filmes estão no meu computador, não na tv. A intimidade de verdade está no modo como fui eu que pintei meus móveis de branco. E me senti importante.
No quarto você pode fazer de tudo. Não é só o que estávamos pensando. Também pode ser, mas essa parte do quarto já está resolvida, não é? Eu deixo você abrir meu guarda-roupa e ver minhas camisetas de ficar em casa. Vem, se eu te convido, você pode mexer.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sótão...

Desça, criança. Venha brincar. No escuro não há diferença entre aqueles que estão vivos ou mortos.

A lâmpada nunca funciona bem no sótão. Brincadeira infame do acaso com meus medos mais sutis. O ar foge dos pulmões. Mãos invisíveis (inexistentes?),  várias, sufocam-me o colo. Desnecessário respirar aqui. O odor de mofo e coisas velhas me lembra a morte. São alguns segundos até chegar àquelas caixas de pesadelos. Flashbacks

Seis anos: Meus pais trabalham fora. Nós não temos uma tv, é contra a religião. Estou só. As águas, furiosas, despencam do céu em momento oportuno. Uma criança, sozinha, sentada na calçada gélida da garagem, chora.

Onze anos: Madrugada, era proibida a estadia no computador até tão tarde. Mas estava ali, ainda assim. O pai chega do trabalho e abre a porta. A menina vira um tipo de criatura lobo e ataca o pai. Acorda.

Dezesseis anos: A maconha ainda que não alucinógena causa síndrome do pânico. São onze da manhã, mas ser sufocada pelo escuro a atinge.

Dezessete anos: Uma febre alta, Samara visita o quarto.

Vinte anos: Começam os delírios do sono, na madrugada, abre os olhos após um sonho e vê pequenas criaturas sobrevoando seu rosto. Elas fogem quando abre os olhos. A internet explica o fenômeno, nada sobrenatural.

A falta de ar nunca passa. O medo do escuro. É melhor fechar essa caixa. Há outra. Fotografias. A família... a ordem natural das coisas é que os pais se vão antes dos filhos. Mas isso a perturba e era preferível que fosse o contrário. Sonhos assim a atormentam. Filmes dramáticos sobre câncer perpassam sua mente frequentemente. Melhor parar de assistir a dramas.

Tantos cantos escuros. A psicanálise exploratória ainda não está feita. Nem será agora. O convidado não é trazido aqui. O que vim pegar, desapareceu.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Vai um café?


Chegando na cozinha, você pode até pensar "Mas que casinha incoerente!". No entanto, enquanto coo um café amargo, o cheiro forte te espanta. Te traz para um realidade tátil. Quando volta teu olhar para a sala de estar, um susto. Se esvaiu, o que vê é a porta vermelha. De fato, uma casa incoerente.
Percebe, que a sala só existe para olhos desapercebidos, mal treinados. Que a porta, na verdade, dá direto na cozinha. A sala era apenas realidade virtual.
Entre utensílios, coisas úteis, quero dizer, nos encontramos numa mesa. Em mesas exponho as cartas da vez. Eu disse que era uma casa de sentimentos. Mas na verdade, eu acho, de sentimentos também se invadem as razões. Que razão terá o fim se não o entremeio dos desesperos?
Quantos biscoitos à fazer antes do café estar pronto de verdade.
Na cozinha, a janela dá para a rua. E na rua os carros levantam poeira, encobrindo o pôr do Sol. Ainda assim, o sentimento é ambíguo. O pôr do Sol está ali, e ele ainda é mágico, ele ainda reflete a porta vermelha. Mas a poeira deve ser vencida, e o café é necessário. Que fiquemos acordados até a hora certa de chegarmos ao quarto.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Da casa da porta vermelha



Mal abri a porta vermelha, e já chegamos na sala. A sala é um ambiente construído. Não é como o resto da casa. Ninguém relaxa numa sala de estar. Estar, que tipo de nome é esse. Você está ali, parado, meio desconfortável. Você pode sentar no sofá, mas cuidado pra não derrubar nada. Na minha sala, o tapete é de ovos. E isso é danado de complicado. Ou você fica com o pé frio de pisar no piso, ou então pisa nos ovos. Eles são encaixadinhos, mas sempre podem quebrar.
Te ofereço uma cadeira, alguma coisa pra beber. Não é como se realmente te oferecesse algo para beber e eu fosse ter o que você pedisse. É só conversa fora, você sabe que é café ou um suco sem graça, de pacotinho.
Ligo a TV e a previsão do tempo. Se fosse um prédio e não uma casa, elevador.
Aí você se sente desconfortável, eu também.
Nota mental, transformar a sala num ateliê.
Mas vem, não desiste, pede pra ir no banheiro, ou conhecer a varanda...

Red doors

Eu quero fazer de meus sentimentos, portas vermelhas. Portas vermelhas sussurram mistérios. Muitas vezes são chorosos. No entanto, te atraem para ela com um místico calor. Derrubar muros e expor as portas. Elas, ainda que trancadas, sempre oferecem a maçaneta. Você poderá abri-las. Observar a organização da sala de visitas e, com algum esforço, compreender a bagunça de meu quarto.
Você poderá tropeçar na mesinha de centro. Tem um grande vaso com lírios nela. Traz uma paz para a sala de visitas. Não se distraia. Continue pelo corredor. Ali você poderá encontrar alguns quadros, fotos de infância. Você pode ficar algum tempo ali, é um lugar feliz. Mas não perca o rumo. Eu te convidei para conhecer a casa não é? As portas são vermelhas. Na cozinha, o café te faz sentir ambíguo. É um acordar tão realista que dói, mas o cheiro é agradável e inspirador.
Quando chegarmos ao quarto, não se assuste. Todas essas roupas, esses livros, essa desorganização, sou eu ainda. Se você abrir aquele livro, de capa preta, ele pode verter água. Mas ela é pura e não mancha. Um pouco de tempo e seca. Se revirar aquela pilha de vestidos, pode encontrar alguma poesia. É coisa ruim, mas há ainda um perfume no papel. E se sentar em minha cama, ao meu lado, posso te contar porque a porta é vermelha.
Eu sei que é difícil chegar até lá. Mas eu te conduzo pelos caminhos e te ensino os atalhos. A porta é vermelha, mas os retratos são preto e brancos.

Bruna Dancini

terça-feira, 30 de abril de 2013


São tantos causos e aflições pra contar, e tanto dia a dia pra acontecer, que esqueço de olhar no teu olho e dizer que te amo, te mostrar aos pouquinhos que sem você não sei viver. E cada noite ao dizer boa noite, vem uma necessidade avassaladora de ter você aqui, porque todas essas horas sem falar com você só trazem sonhos ruins. Eu perco o sono, lembrando cada riso teu, cada bobeira, só não esquece que apesar de toda a chatisse, no fundo só quero chamar sua atenção...

É que eu preciso dizer que eu te amo, te ganhar te perder, sem engano...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Crescendo

Que clichê dizer que crescer é chato e démodé. Mas de que me importa, preciso dizer.Quando estou com as crianças e tenho que ser chata e mandar pararem de fazer as coisas. Se a água estourasse e eu não fosse a profe, eu ia morrer de rir, estava calor. Mas eu tenho que ficar de mal humor e brigar.
Crescer é tão chato. Eu queria era ver desenho em vez de filme de terror. Sempre. Eu queria que minha mãe se preocupasse com o que eu comi e não com o que vou fazer depois da universidade.
E as crianças loucas pra serem grandes. Meninas de 12 anos que já perderam a virgindade e acham que são super legais por ter um facebook. Se eles soubessem. Ainda deu tempo de brincar de Harry Potter na escola aos 12. Mas mesmo assim, cada vez têm menos tempo, as crianças. Aos 2 estão na escola, aos 4 no ballet, no inglês, no francês, na ginástica. E brincar, e sonhar, e pular? Cadê?
Não quero destruir infâncias. Eu quero continuar sonhando. Não quero destruir a minha infância infinda, ficando brava com coisinhas de 4 anos que só fazem arte porque precisam de atenção.
Concentra, ser criança é diversão.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

“Isaac vira furacão e atinge sul dos EUA” O Estado de São Paulo, 29/08/12.

“Isaac vira furacão e atinge sul dos EUA” O Estado de São Paulo, 29/08/12.

Isaac era um corretor, calmo e pacífico. Sempre com seu encarte de imóveis, vendendo casas por aí. Mas sua mulher, Catrina, o abandonou. A mulher decidiu fazer plástica, renovar o guarda-roupa e de um dia pro outro virou um furacão. Despedaçando o coração de Isaac.
Ele tentou resolver com bebida, tentou a música, mas não tirava Catrina da cabeça. Só havia um jeito. Isaac entrou pra academia. Começou à ler política, ouviu música clássica, comprou um carro. Deixou de ser corretor, decidiu virar Johnny Cash. Isaac virou um furacão. Seguiu os passos de Catrina.
Mas Isaac continuava deprimido. Tão deprimido que virou uma depressão tropical. Nenhum psiquiatra entendia seu estado. A bebedeira não parava. Isaac não tinha jeito. A família, judaica ortodoxa, já não via solução para a ovelha negra.
Eis que então, certo dia, Isaac encontra Catrina. Essa, um furacão apaziguado, nesse dia, lhe repara a aparência bucólica, embriagada. Que passa, se perguntou. Mas tudo já lhe estava claro, só Isaac não sabia.
O que lhe levou a depressão fora o nome que fora imposto.
Para ser um furacão, furacão de verdade, tinha é que ser Hilda, Hilda furacão.
Isaac virou Hilda, colocou peruca ruiva. Usou salto 15. Deixou as unhas crescer. Agora já não é uma depressão tropical.
Agora você pode ver seu show de quarta à domingo na Boite Paradaise. É conhecido como Hilda. É, hoje, um furacão.



Drogas resistem em praça no bairro Portão - Gazeta do Povo

http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1292451&tit=Drogas-resistem-em-praca-atras-do-Portao-Cultural


Fonte confiável informa que as drogas continuam resistindo na guerrilha na praça do Portão. Autoridades já tentaram disseminar as delinquentes, mas nenhuma ação foi eficaz!
Heroína é a chefe do grupo de crime organizado. Se intitula justa, diz que só está manifestando pela liberdade alucinógena.
Marijuana, outra militante, é a porta-voz do grupo, com voz tranquila deu entrevista exclusiva para o nosso jornal, segundo ela, tudo ficará na paz, devemos relaxar e aproveitar a maresia.
Intervindo na entrevista, a agitada Cocaína chutou os aparelhos de nossa equipe, por isso estamos com falta de imagens hoje.
Lucy in the Sky with Diamonds, também conhecida apenas como Lucy, perguntou à equipe quando Sininho iria parar de persegui-las.
Não temos nenhuma informação de Sininho, nem de sua perseguição.
Amotinadas num canto, as apelidadas Bala e Docinho batiam as cabeças em caixas de som. Não sabemos ainda a razão, mas acreditamos ser mais uma forma de protesto.
O mais impressionante foi um senhor já idoso, Ópio, reunido à multidão. O senhor, com um tapa olho, barba longa e roupas antigas, assemelha-se a um pirata.
Além de empilhar diversas sacas de trigo, o grupo fez uma fogueira em meio à praça, em torno da qual se é produzido um chá de cogumelos. Todo o lugar está invadido por um cheiro forte, alguém usou um lança-perfume.
Temos de interromper as notícias pois um crack chutou uma pedra em nosso aparelho de filmagem.

A redação.


Literatura, clássicos e imaginação.

Como aluna de Letras, eu deveria estar aqui defendendo os clássicos. Dizendo o quanto eu adoro Dostoieviski, ou Aluísio de Azevedo. O grande problema, é que, apesar de admirar esteticamente os clássicos da literatura mundial, é a imaginação que me prende a um livro. Sim, eu sei, não amadureci literariamente, mas o que posso fazer?
Cada vez que vejo um livro com um quê de magia ou de ficção científica meus olhinhos brilham! Deveria existir um curso de Letras Fantásticas, imaginem que lindo seria...
A verdade é que eu acredito cada vez menos que as pessoas leiam os clássicos por prazer. Talvez para parecer cult, para impressionar em sala de aula, para admirar o trabalho de criação. Eu também faço isso. Mas por prazer eu gosto mesmo é de pegar um livro quase infantil, Sítio do Pica-Pau Amarelo, A Montanha Encantada, O Senhor dos Anéis, Peter Pan... deve ser por isso que tatuei o Peter Pan. Eu não consigo crescer e sair de Neverland. Deve ser por isso que mesmo com meus quase 21 anos na cara, ainda me identifico mais com os adolescentes do que com os super letrados.
O problema é que parecem ser coisas excludentes. E eu estou lutando contra isso. Não é porque posso analisar segundo Bakhtin, que eu precise fazer isso! Eu posso querer apenas aguçar minha imaginação para dormir melhor. Ou mesmo para ser mais capaz de criar.
Não vou dizer que é fácil escrever uma história realista, mas criar um mundo completamente novo e ainda por cima dar valor estético a isso, ah... aí sim é que é trabalho, aliás, nada melhor que Tolkien como exemplo. Mas mesmo Stephen King é ótimo nisso...
Agora estou prestes à começar O Mágico de Oz, o original. E os defensores dos clássicos cults que me perdoem. Mas aposto um pote de Nutella que vou aproveitar mais a leitura do que quando começar Shakespeare.
Abaixo a falsidade literária! Vamos assumir nossos gostos. Quem é que nunca leu algo muito, mas muito, inútil na adolescência? E não foi bom? Se parássemos de julgar o que as pessoas leem, talvez elas lessem mais!
E agora, só parar deixar com vontade, algumas capaz que já te levam para o Reino Perdido do Beleléu...



Ficou com vontade de ler algo que seus professores de literatura te condenariam se vissem? LEIA!
Ps: todas essas capas são de livros lidos e aprovados com o selo Bruna Dancini de felicidade imaginária!


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Ter bom humor é obrigação!

Antes de iniciar o texto em si, gostaria de dar as boas vindas aos novos leitores, é, estou vendo mais snipers aqui, agradecer aos 25 de sempre que marcam presença diariamente nas minhas lindas estatísticas e convidar pra sentar, se acomodar, fica...vai ter bolo. Voltem sempre ao blog!

Pois bem, é com terrível pesar, leitores, que vos informo que o mal humor está oficialmente proibido. Pois é, eu sei, é complicado, trabalho, estudo, falta do que fazer, o tédio da vida moderna, falta de amor, sabe-se lá o que. Mas, sinto muito, está proibido e ponto final.
É chato dar uma de lição de moral, auto-ajuda ou coisa do tipo, mas a vida me deu um tapa na cara. Estava eu no ônibus de manhã, odiando todos os seres vivos, como sempre acontece no transporte coletivo, quando o motorista pára (sim, pára, abaixo a reforma ortográfica, me deixem com minhas idÉias). Ali, no ponto, já se ouve um bom dia alto, daqueles que te dá mesmo vontade de ter um bom dia. Mas o mal humor perdura, afinal, lá vou eu saindo do conforto da minha cama. Então, o cobrador vai abaixar a plataforma de cadeirantes e eu vejo quem dera o bom dia. Um senhor de cerca de 70 anos, numa cadeira de rodas, roupas simples, mãos de trabalhador. Ele não tinha uma das pernas. Nunca cheguei a conversar com ele, mas era fácil imaginar sua história. Um acidente de trabalho, gota? Diabetes? Alguma trágica peça da vida levou sua mobilidade. Quando ele entrou no ônibus, todos perceberam. Ele conversou com o cobrador, com o motorista, deu bom dia à quem estivesse à sua vista. Não, não era um pedinte. Era só uma pessoa bem humorada, que apreciava a própria vida. Nós, muitas vezes, com tudo em ordem, não damos o menor valor à ela.
Não vou dizer com a desculpa dessa anedota, agradeça à Deus, ou vá fazer trabalho voluntário ou sei lá, salve o mundo. Mas, meus caros, o mal humor está proibido. Pelo menos tenha a consideração de dar um sorriso de vez em quando, vossa carranca nos ofende. Deixa mais feia a caricatura do dia-a-dia. Então, nos poupe desse beiço amarrado e sorria. Se estiver difícil, não pense em nenhum vídeo motivacional, lição de moral, auto-ajuda. Abra o 9gag, o ahnegão, ou qualquer outro site de humor. Tire sarro da desgraça, não perca a piada. Se não, os fiscais do mal humor podem vir e te dar uma multa, quem sabe um jeito de você valorizar as coisas. Ou, se não der certo, ria desse incrível acrobata, rir da desgraça alheia faz parte.




quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Aromatizantes de pipoca e o governo: A conspiração do Século!

Que o leitor me perdoe o título alarmante, mas hoje, cheguei à epifania política dessas eleições. Folheando um jornal, me deparo com duas notícias.
A primeira, apontava os grandes males causados pela diabólica pipoca do mal. Isso mesmo digníssimos, a nossa tão inocente pipoquinha do dia-a-dia, com seu suave cheirinho de manteiga é uma maldita farsante! A sínica tem a coragem de nos iludir com seu sabor de manteiga pois, sim, segundo a pesquisa, é o cheirinho da manteiga a grande mente por traz de tudo. Iludidos, nós, pobres consumidores, estamos sendo secretamente privados pouco á pouco de nossas faculdades mentais. Ou, nas palavras deles, aromatizante sabor manteiga, por causa do composto diacetil, causa Alzheimer.
Já indignada com essa terrível notícia que me afastaria dessa já decenária companheira de filmes e espetáculos, vejo a próxima notícia. Pesquisa aponta que deputados brasileiros têm cerca de 20 assistentes a mais que os franceses. Ok, não é tão grave. Depois do dinheiro na cueca isso é fichinha. Mas essa foi a fichinha da máquina de epifanias instaladas no meu, ainda não completamente disfuncional por conta da pipoca, cérebro.
O que me foi revelado pelos deuses é que uma trapaça do Texas está sendo feita no cenário político nacional. Não entendeu nada? Deixe-me esclarecer. Trapaça do Texas é quando você faz algo à direita, que chame muito a atenção, para distrair o público, para que esse não repare nas falcatruas que você faz ali, na surdina. A genialidade da trapaça sendo realizada é a metáfora do Brasil sobre política: Tudo acaba em Pizza. A célebre frase é apenas para chamar sua atenção. Na verdade, na surdina, eles te enfiam e pipoca. Pipoca com muito aromatizante de manteiga. Assim, você assiste ao espetáculo de horrores do plenário com a boca cheia, que é para não dar opinião e, ainda por cima, graças ao aromatizante com bonus Alzheimer, esquece o show, assim o espetáculo poderá ser repetido eleição após eleição e você aí achando que os atores são revelação do ano.

Bruna Dancini

A chegada do Tio Bola

Digníssimos leitores não-espíritas, não se assustem com o que vem a seguir. Para o que conhecem o nome, já devem ter se assustado, mas vamos explicar. Tio Bola, Vô Bolinha, Dancini, Haroldo... ele têm diversos nomes, mas vamos conhecê-lo pela placa que vai em cima de sua carreta. Tio Bola é um caminhoneiro, espero, vivido, pai de três filhos, ainda com sonhos na vida. Só que Tio Bola já morreu. Essa que vos fala traz a sabedoria de para-choque dessa voz sábia do além. Espero que gostem, Tio Bola andará dando algumas passadas por aqui.

Matemática da Escola

Ser pai não tá fácil.Três cabeça pra criar, têm que sair da escola tinindo. Eu não tive nada disso. Poucos anos já estava na lida, com dez já dirigia carreta. Meus irmãos? Tudo a mesma coisa. Até a Amalia. O Gigio tá com três caminhões. É aquilo, não estou reclamando da vida nas estrada. Quem nasce caminhoneiro tem que amar o horizonte no para-brisa. Mas é que hoje, hoje segundo grau não é nada. Eu, com meu ginásio, sou quase um indigente estudantil.
Mas com meus filhos vai ser diferente. Quero todos na faculdade. Matemática é que é coisa importante nessa vida. quero o Roberto virando engenheiro. Quero Marita e Teresa contadoras, economistas. Quem sabe vão até trabalhar em banco. Imagina que chique?
Educação é dinheiro, mais que tempo. É investimento pra vida. É só calcular os lucros. Se os três estiverem formandos em... 20 anos? Eu vou estar com 50, ainda uns anos de estrada, mas tenho sangue forte. Aí ainda tem uns 15 anos para eles se estabelecerem na vida, comprar casa, carro. Aí vêm os netos, mas aí mais 20 anos pra formar os deles. É, investimento de risco.
4 anos de fundamental, 5 de ginásio, 4 de normativo, aí vão pra faculdade. Deixa eu ver, primeira fase, 13 anos vezes 3 de uniforme, material escolar, comida, menos o prejuízo de não estarem trabalhando... Api mais uns 5 anos de faculdade, vezes a passagem de ônibus, mais as mensalidades, matrícula, roupa... É, eles vão ter que ganhar muito bem para esse investimento dar lucro. Se cada um tiver 2 filhos, são mais 6 vezes tudo. Acho que em uns 40 anos acaba o investimento deles. Aí eu vou ter 70... ainda dá tempo de aproveitar a lucratividade.
Só que, como os caminhões, gente também roda um tanto e aí funde o motor. E eu, ainda muitos quilometros pra rodar. Eu vou há uns 150 por hora. Vezes umas 9 horas pordia, dá 1.350 quilometros por dia. Trabalho uns 350 dias por ano, em 40 anos são 17.820.000 quilometros rodados. A Terra te, 40.045 quilometros de diâmetro, Robertinho que me disse. Divididos pelos quilometros que vou rodar antes do investimento dar lucro, mais ou menos 445 voltas no mundo.É, tempo é dinheiro, estudo é dinheiro. E muito. Saindo do meu bolso. Prejuízo quase certo. Mas pelos filhos, dou quantas voltas no mundo for preciso. E é melhor largar da caneta e pegar o volante. Ainda tenho 445 voltas pra dar.

Pára-choque de caminhão do dia: Devo tudo a minha mãe, mas já estou negociando.



Leitores, esse personagem que dará voz a alguns textos é uma homenagem ao meu avô, Bolinha, falecido já há quase dez anos. As histórias são ficcionais, com alguns toques do dia-a-dia, é claro. Os toques desse personagens serão de dar simplicidade aos assuntos cotidianos dos trabalhadores. Cômicos de vez em quando.


Vô, sinto sua falta.
 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Chavasca

Caros leitores e leitoras inválidos de dedos, já que as estatísticas apontam que vocês vêm espiando meu blog silenciosamente, quase diariamente... eu sei que estão aí escondidos como bons snipers que são. Hoje nosso post tem um título assaz peculiar. Sou falante do Inglês, mas como não-nativa não conheço bem suas variações linguísticas, se tiver algum leitor internacional que me perdoe, mas não conheço nenhuma língua que tenha mais sinônimos para a região íntima da mulher do que o Português. Me perdoem as palavras que seguem, mas uma listagem faz-se imprescindível. Buceta, Vagina, Perseguida, Periquita, Rachada, Xoxota, Xotinha, Xana, Xereca, Beiçuda, Aranha, Perereca, Toca do Palhaço, Casa do Caralho, Pombinha. Ufa, quem conhecer outros me informem, é sempre uma análise interessante da variação linguística.
Mas Chavasca é especial. Uma mulher que tem uma chavasca é diferente. É a mulher que você não chama de gostosa, você chama de potranca. Mulher de curvas, de atitude. Se mais pessoas tivessem chavascas, o machismo diminuiria nesse país. Quase todos os outros apelidos carinhosos são sexuais, inventados por homens. Mas a chavasca é a promessa da atitude, de mulher forte. É quase um elogio, essa mulher tem uma chavasca que só!
Ah, mulheres, na hora de escolher como chamam suas regiões pubianas tudo depende da situação. Na depiladora você chama de pombinha, periquita, animais pequenos, quase delicado, afinal você não quer assustar a mulher. Com o namorado, maridão de plantão e variados, é xaninha, buceta no máximo, mas aí já  está no vamos ver. No médico vem a profissional vagina, sempre me vem um ET à mente. Na roda de funk chamam de Xota, coisa grande, vulgar. Xereca é com as amigas, pra dar risada. Aranha é difamação. Perseguida é aquela tia metida a engraçada. Beiçuda é o amigo virgem querendo dar uma de comedor. Casa do Caralho é o nojentão que tem de pagar pra isso. Mas chavasca...
Ah, a chavasca é só para os entendedores da importância da denominação. A chavasca não é o objeto sexual. Chavasca é o grande símbolo da beleza e força da grande paridora, geradora de bebês e suspiros. A origem da palavra já dá pra ver de longe, rio grandense, na verdade é um tipo de facão. Que associação mais propícia. Afinal, pode ser o facão que causa a perdição de muitos e muitas. Pode ser o instrumento de trabalho de alguns, profissão mais antiga do mundo, vamos respeitar. Pode ser a faca que se usa para esculpir um entalhe. É, pode ser muita coisa a chavasca. Dar nome faz toda a diferença.


Bruna Dancini.